Deus é o Autor do Mal? Providência, Sofrimento e o Que Fica Sem Resposta
Este é o terceiro e último artigo de uma série sobre providência e concurso divino. Na Parte 1, vimos como Deus sustenta a criação; na Parte 2, como Ele governa as escolhas humanas, inclusive as pecaminosas. Aqui, enfrentamos a pergunta que as duas partes anteriores deixaram em aberto.
A pergunta que não dá para evitar
Se você acompanhou os dois primeiros artigos desta série, provavelmente já sentiu a tensão aumentar. Vimos que Deus sustenta a natureza das coisas. Vimos que Ele governa até as escolhas pecaminosas dos homens — Ciro, Nabucodonosor, Absalão, Judas — sem deixar de responsabilizá-los. Chegou a hora de fazer a pergunta que essas duas ideias, juntas, tornam inevitável: se nada acontece fora do controle de Deus, Ele é, de alguma forma, o autor do mal?
A resposta bíblica histórica é não. Mas esse “não” exige cuidado. Respostas prontas não aguentam o peso desta pergunta.
Por que “Deus permite” não basta sozinho
Muitos dizem: “Deus não fez o mal acontecer; Ele apenas permitiu.” Há verdade aí. Mas, sozinha, essa frase pode criar um problema maior do que resolve.
“Permissão”, no uso comum, designa alguém que poderia agir, mas escolhe não intervir — seja por falta de poder, de conhecimento ou de presença. Nada disso se aplica a Deus. Ele não é impotente diante do mal. Não é pego de surpresa. Não está ausente. Tratar a permissão divina como um simples “olhar para o outro lado” é atribuir a Deus uma limitação que Ele não tem. A Escritura nunca faz isso.
Por isso, a tradição reformada fala em permissão qualificada, não mera permissão. A Confissão de Westminster (cap. 5) é clara: Deus permite o pecado, mas “para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente [o] limita, regula e governa”. Não é uma permissão passiva. É soberana — regula limites, momento, alcance. E ainda assim — ponto central — a Confissão termina: “a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura, e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado”.
Veja o contraste: Deus governa soberanamente até mesmo os acontecimentos maus. A culpa, porém, é toda da criatura. A Confissão não tenta resolver essa tensão. Apenas a mantém — como a Escritura faz.
Causa primária e causas segundas
Essa distinção, já mencionada, merece um nome próprio aqui. É ela que sustenta tudo o resto.
Deus é a causa primeira de tudo o que existe. Nada acontece fora do seu decreto. Mas Ele normalmente age por meio de causas segundas: a vontade humana, as leis da natureza, o acaso aparente. Cada uma atua “segundo a sua própria natureza”, como diz a Confissão — seja necessária, livre ou contingente.
Quando alguém toma uma decisão, ela é genuinamente livre (como causa segunda). Ao mesmo tempo, está sob o governo de Deus (causa principal). Um evento, dois níveis. Ambos reais.
Uma analogia: pense num homem com a perna machucada. Ele consegue andar porque tem força — força que, no fim das contas, vem de Deus. Mas ele manca não por causa da força, e sim por causa da perna defeituosa. Assim também, Deus sustenta a capacidade de agir mesmo de quem peca. O ato existe porque Deus sustenta o agente. O desvio moral, porém, decorre da vontade corrompida do próprio agente. Deus ordena o evento sem ser o autor moral do pecado.
Jó: o texto que mais leva a sério essa tensão
O livro de Jó gira em torno de uma única pergunta. A estrutura da história recusa-se a ambas as simplificações fáceis.
No início, Satanás pede autorização para atacar Jó. Deus concede — com limites (Jó 1:12; 2:6). O texto mostra um agente maligno com vontade própria. Satanás não é uma marionete. Mas Deus também não está ausente: Ele dá a autorização, impõe os limites. Jó, ao perder tudo, não diz: “o Senhor deu e Satanás tomou”. Diz: “O Senhor deu, e o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21).
Depois da segunda rodada de sofrimento, Jó pergunta à esposa: “Receberemos de Deus o bem e não receberemos também o mal?” (Jó 2:10). O narrador não deixa a frase no ar. Acrescenta: “em tudo isto, não pecou Jó com os seus lábios”. Não é só a opinião de Jó; é a avaliação do texto bíblico. Mais adiante, os amigos e parentes vêm confortá-lo. O texto resume: “o mal que o Senhor lhe havia trazido” (Jó 42:11). Atribui a Deus, sem hesitação, calamidades executadas por Satanás e por agentes humanos.
Jó não erra na teologia. Ele faz o que José faz em Gênesis 50:20 — reconhece que, por trás das causas segundas (a malícia de Satanás, a violência dos assaltantes), há um governo soberano. Jó atribui isso a Deus, e o texto concorda.
Há um detalhe: nós, leitores, sabemos mais do que Jó. Vimos a cena celestial, a acusação de Satanás, a autorização, os limites. Jó nunca soube disso. Viveu e morreu sem saber por que sofreu. E mesmo a nós, o texto não fornece todas as explicações. Sabemos mais que Jó. Ainda não sabemos tudo.
O que a Escritura explica — e o que ela não explica
É tentador dizer: “isso é um mistério” — e parar aí. Mas a Escritura não deixa tudo às escuras.
A Escritura é clara em alguns pontos: Deus governa soberanamente tudo. O ser humano age voluntariamente, segundo seus desejos. Essa ação implica responsabilidade moral efetiva. Deus é santo — não pode ser autor do pecado. E, de José a Ciro, passando pela cruz, vemos que Deus usa até ações más para cumprir propósitos bons.
O que a Escritura não explica é o mecanismo: como a soberania de Deus e a liberdade da criatura coexistem na mesma ação sem se anularem. Aqui a explicação se detém. Não por omissão, mas porque recebemos o suficiente para confiar e obedecer — não tudo o que é necessário para entender como a causalidade divina e a causalidade criada se encaixam.
Por que isso importa na prática
Quando alguém faz o mal contra você, essa doutrina te dá dois apoios: quem agiu é culpado de verdade — você não precisa dourar o sofrimento com “tudo faz parte do plano”, como se maldade não fosse maldade. Nada pega Deus de surpresa. Tudo está sob seu governo. Você pode chamar o mal de mal e ainda confiar que Deus comanda a história — até essa parte. Isso também impede que a dor seja minimizada cedo demais. Jó lamentou capítulos inteiros antes de ouvir Deus.
No seu próprio sofrimento, essa doutrina bloqueia dois erros: culpar Deus como se Ele fosse o autor moral do seu sofrimento, ou tratar tudo como acaso sem sentido. Como Jó, você pode dizer “o Senhor tomou” — sem dizer “o Senhor pecou”.
Quando faltam respostas, essa doutrina permite manter perguntas em aberto. Jó nunca soube da conversa nos bastidores. Nós sabemos um pouco mais. Ainda assim, não sabemos tudo. No fim, Deus não deu a Jó uma explicação — deu a si mesmo. Às vezes, é só isso que recebemos também.
Conclusão da série
Nestes três artigos, o caminho ficou cada vez mais difícil — de propósito. Começamos com o fogo que queima, a água que molha, naturezas sustentadas por um Deus fiel. Passamos pelas escolhas humanas, até as pecaminosas, governadas por Deus e ainda livres e culpáveis. Terminamos diante do mal e do sofrimento, em que a Escritura recusa tanto a explicação fácil quanto o silêncio.
O fio dos três artigos é só um: Deus não está ausente de nada — do que existe, do que acontece, do que dói. Mas nunca se mistura ao mal que governa. Ele é soberano. Ele é santo. Aprender a viver na tensão, sem forçar uma saída, talvez seja o modo mais maduro de confiar nEle.