A linguagem que Deus escolheu
Há uma pergunta que precisamos responder antes de qualquer outra.
Não é uma pergunta sobre o Anticristo, o arrebatamento ou o milênio. É uma pergunta mais simples — e mais importante:
Como Deus fala neste livro?
Se erramos essa resposta, erramos todo o resto. Podemos ter boa teologia e boas intenções e ainda assim ler o Apocalipse de forma equivocada, se não entendermos a linguagem que Deus escolheu para ele.
A boa notícia é que Deus não nos deixou no escuro. Logo na primeira frase do livro, ele nos oferece uma chave que abre tudo o que vem depois.
A primeira frase é um sinal
“Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer; e as tornou conhecidas, enviando seu anjo ao seu servo João.”— Apocalipse 1:1 (NAA)
Em grego, a palavra traduzida como “tornou conhecidas” é sēmainō. Esse verbo significa comunicar algo por sinais — não é a palavra usual para explicar ou declarar diretamente. Ele prepara o leitor: o que vem a seguir será transmitido por meio de visões e símbolos.¹
E não é a primeira vez que essa palavra aparece nas Escrituras dessa forma.
Daniel abre a porta
Muito antes de João, um rei pagão teve um sonho que o perturbou. Nenhum sábio da Babilônia conseguiu interpretá-lo. Mas Deus revelou o sonho ao jovem Daniel — e a linguagem dessa revelação é a mesma que João usa no Apocalipse.
“Há, porém, um Deus no céu que revela os mistérios, o qual fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de acontecer nos últimos dias.”— Daniel 2:28 (NAA)
Na Septuaginta — a tradução grega do Antigo Testamento que os primeiros leitores do Apocalipse conheciam — três expressões aparecem nessa passagem: “revelar” (da mesma raiz de apokalypsis), “tornar conhecido” (da mesma raiz de sēmainō) e “o que há de acontecer”. As três voltam em Apocalipse 1:1.²
João está citando Daniel. Faz isso de propósito, logo na primeira frase, para dizer ao leitor: você já conhece esse tipo de linguagem. Leia este livro como você leu Daniel.
E como Daniel comunicou as verdades de Deus a Nabucodonosor? Por meio de uma estátua com cabeça de ouro, peito de prata, ventre de bronze, pernas de ferro e pés de barro. Ninguém ficou confuso achando que havia uma estátua gigantesca de verdade. Todos entenderam: são símbolos de impérios reais, de história real, do governo de Deus sobre nações reais. O símbolo não inventa — revela.
O Apocalipse começa exatamente assim.
O que significa “simbólico”
Aqui precisamos ter cuidado, porque a palavra “simbólico” carrega ideias que podem nos confundir.
Para muitos cristãos, “simbólico” quer dizer “não real” ou “apenas figurativo”. Mas veja o que acontece em Daniel: a estátua é um símbolo que representa impérios absolutamente reais. O leão com asas de águia é um símbolo que representa a Babilônia — uma nação real e poderosa. O símbolo não elimina a realidade; ele a revela com uma força que a prosa simples não alcança.
Quando a Besta de Apocalipse 13 surge do mar com dez chifres, sete cabeças e uma boca que fala blasfêmias, não estamos diante de uma criatura zoológica. Estamos diante de uma imagem que arranca a máscara do poder imperial e mostra o que ele realmente é. A prosa diria: há governos que perseguem cristãos e se opõem a Deus. O símbolo diz isso e vai além — com uma clareza que chega onde os argumentos racionais não chegam.
Deus não escolheu o simbolismo por preguiça, nem para esconder a verdade. Escolheu porque é o meio mais adequado para revelar realidades espirituais profundas ao coração humano.
“Literal de acordo com o gênero”
Há um princípio de leitura bíblica que ajuda aqui: leia cada parte da Bíblia de acordo com o tipo de texto que ela é.
A Bíblia não é um livro uniforme. Ela tem história, poesia, lei, sabedoria, profecias, cartas e literatura apocalíptica. Quando lemos o Salmo 91 — “debaixo de suas asas te abrigarás” — não pensamos que Deus seja uma ave; sabemos que é poesia. Quando lemos que Josué capturou trinta e um reis em Canaã, não buscamos linguagem figurativa, porque é história. Cada gênero tem suas regras, e lemos bem a Bíblia quando as respeitamos.
O Apocalipse é literatura apocalíptica — um gênero com características próprias: visões dramáticas, animais compostos, números com significado simbólico, conflito cósmico entre o bem e o mal. Dentro desse gênero, ler simbolicamente não é ser menos literal. É ser literal do jeito certo. É respeitar o texto como ele foi escrito.
Dizer que a Besta é um símbolo não esvazia o texto de sentido. É ler como Deus escreveu: uma imagem poderosa que aponta para uma realidade maior do que qualquer animal poderia representar.
Por que isso importa
Quando entendemos que o Apocalipse fala por meio de símbolos ligados ao Antigo Testamento, o livro se abre. As imagens ganham profundidade. A prostituta bêbada de sangue é Roma — mas também representa todo poder que se veste de glória enquanto devora o povo de Deus. O Cordeiro que foi morto e está em pé é a cruz — mas também o princípio eterno pelo qual Deus governa a história. Os selos, as trombetas e as taças não são apenas uma sequência de eventos; são ciclos que mostram a mesma realidade sob ângulos diferentes, com intensidade crescente, até o fim.
Quando lemos o Apocalipse como se fosse um manual de previsões, tentando identificar os símbolos nas notícias do dia, o livro se fecha para todas as gerações, exceto para a nossa. Leitores do século II fizeram isso com Roma. Leitores medievais, com os mouros. Leitores do século XX, com a União Soviética. Em cada caso, quando os eventos não corresponderam ao que foi previsto, a interpretação não sobreviveu.³
O Antigo Testamento não envelhece. E é ele que nos dá a chave.
O que João viu
Para tornar isso concreto: Apocalipse 1 descreve o Cristo ressuscitado com cabelos brancos como lã, olhos como chamas de fogo, pés como bronze polido, voz como o som de muitas águas e uma espada saindo da boca.
Se lemos isso de forma equivocada, imaginamos uma figura fantástica, quase alienígena. Mas quando abrimos o Antigo Testamento — como João esperava que fizéssemos — reconhecemos, peça por peça, as imagens do Ancião de Dias em Daniel 7, dos querubins de Ezequiel 1, do anjo do Êxodo. João está construindo um retrato de Cristo com a linguagem que Israel já conhecia, para dizer: aquele de quem as Escrituras falavam está aqui — e ele reina.
A espada saindo da boca não é uma arma literal. É a Palavra de Deus — que julga, divide e governa. Quem conhece Isaías 49 e Hebreus 4 já sabe disso.
Isso não é menos impressionante do que uma espada de verdade. É infinitamente mais.
Deus poderia ter escrito o Apocalipse em linguagem direta — e escolheu não fazer isso. Preferiu a linguagem dos profetas, a gramática das visões, o vocabulário que Daniel já havia inaugurado. Porque essa linguagem chega onde a conversa comum não chega. E logo na primeira frase, ele já nos disse onde encontrá-la.
Notas
- 1 – Sobre o significado de ἐmainō em Ap 1:1, ver G.K. Beale & David Campbell,Revelation: A Shorter Commentary(Grand Rapids: Eerdmans, 2015), pp. 3–4; Dennis Johnson,Triumph of the Lamb(Phillipsburg: P&R, 2001), pp. 33–34.
- 2 – A conexão verbal entre Ap 1:1 e Dn 2:28–30 na Septuaginta é amplamente documentada. Ver Beale & Campbell, Revelation: A Shorter Commentary, pp. 4–5; Johnson, Triumph of the Lamb, pp. 34–35.
- 3 – Para um levantamento histórico dessas interpretações, ver William Hendriksen, More Than Conquerors(Grand Rapids: Baker, 1940), pp. 14–16; Richard Bauckham, The Theology of the Book of Revelation(Cambridge: Cambridge University Press, 1993), pp. 4–6.
Bibliografia
- Bauckham, Richard. The Theology of the Book of Revelation. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
- Beale, G.K. e David Campbell. Revelation: A Shorter Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 2015.
- Hendriksen, William. More Than Conquerors. Grand Rapids: Baker, 1940.
- Johnson, Dennis E. Triumph of the Lamb: A Commentary on Revelation. Phillipsburg: P&R Publishing, 2001.
- Nova Almeida Atualizada (NAA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.