Introdução


Antes de abrir o livro

“Bem-aventurado aquele que lê e os que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas, porque o tempo está próximo.” — Apocalipse 1:3 (NAA)

Antes de começarmos a primeira sessão, vale parar um momento para conhecer o livro que temos nas mãos. De onde ele veio? Quem escreveu? Quando? E o que vamos encontrar quando o abrirmos?

São perguntas simples, mas as respostas já mudam a forma como lemos o Apocalipse.

O nome do livro

A primeira palavra do livro, em grego, é apokalypsis — revelação, desvelamento, algo que estava oculto e agora vem à luz. O nome do livro não é “O Cataclismo” nem “O Fim do Mundo”. É “A Revelação de Jesus Cristo”. Já na primeira linha, o livro deixa claro o que é: não um enigma para decifrar, mas uma revelação para receber. E o centro dessa revelação não é um calendário — é uma pessoa.

Há outro detalhe importante logo de saída. A expressão de Apocalipse 1:1, “as coisas que brevemente devem acontecer”, faz eco direto a Daniel 2:28, onde Deus revela a Nabucodonosor “o que há de ser nos últimos dias”. As mesmas palavras gregas aparecem nos dois textos: apokalyptō (revelar), sēmainō (dar a conhecer por sinais) e a expressão “o que deve acontecer”. João nos orienta desde o primeiro versículo: leia este livro como lemos Daniel. E o que encontramos em Daniel 2? Uma visão simbólica do futuro — uma estátua de metal e uma pedra cortada sem mãos — que comunica verdades profundas por meio de imagens, não de palavras diretas. Desde o primeiro versículo, João nos entrega a chave para entender o livro.¹

Quem escreveu

O autor se apresenta como “João” quatro vezes.² A tradição da igreja primitiva, desde Irineu de Lyon no século II, identifica esse João como o apóstolo — o mesmo que escreveu o Evangelho e as cartas que levam seu nome. Irineu tinha uma ligação pessoal com essa tradição: foi discípulo de Policarpo, que, por sua vez, fora discípulo do próprio João.³

Quando João recebeu essas visões, não estava em um escritório tranquilo. Ele se encontrava exilado na ilha de Patmos, no Mar Egeu, “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus”. O autor deste livro era prisioneiro, e as igrejas às quais escrevia também sofriam. Isso já nos revela algo importante: o Apocalipse nasceu em meio ao sofrimento e foi escrito para pessoas que sofriam. Não se trata de especulação teórica sobre o futuro, mas de uma palavra de Deus para pessoas reais, sob opressão real.

Quando foi escrito

A data mais aceita é por volta de 95 d.C., durante o reinado do imperador Domiciano. Esse é o testemunho do próprio Irineu, que situa a visão de João “quase em nosso tempo, perto do fim do reinado de Domiciano”. A grande maioria dos estudiosos, de praticamente todas as tradições teológicas, concorda com essa datação.⁴

Por que isso importa? Porque, em 95 d.C., Jerusalém já havia sido destruída havia 25 anos. O templo já não existia. As igrejas da Ásia Menor viviam uma nova realidade: não mais a crise de 70 d.C., mas a opressão crescente do Império Romano sobre as comunidades cristãs que se recusavam a participar do culto imperial. João escreve para igrejas que precisam aprender a viver com fidelidade quando o mundo ao redor exige lealdade a outro senhor.

Para quem foi escrito

João escreve para sete igrejas na província romana da Ásia, na região oeste da atual Turquia: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Se localizarmos essas cidades no mapa, veremos que formam um círculo — a rota natural de um mensageiro levando uma carta de igreja em igreja.

Mas o número sete, no Apocalipse, nunca é apenas um número. Sete representa plenitude, totalidade. João escreve para sete igrejas específicas, mas, ao escolher esse número, indica que a mensagem é para toda a igreja de Cristo, em todos os lugares e em todos os tempos.⁵ O que Deus diz a elas, diz também a nós.

O que encontramos quando abrimos o livro

O Apocalipse é, ao mesmo tempo, carta, profecia e literatura apocalíptica — três gêneros reunidos em um único livro. Começa como carta, apresenta-se como profecia e transmite sua mensagem por meio de visões e símbolos, como fizeram Daniel e Ezequiel antes.

O movimento geral do livro é o seguinte: inicia-se com uma visão do Cristo glorificado, segue com mensagens às sete igrejas, mostra a sala do trono onde Deus reina e o Cordeiro é digno, apresenta ciclos de juízo — selos, trombetas e taças — junto com visões do conflito entre o Cordeiro e o dragão, e chega à resolução final: a queda da Babilônia, a vitória de Cristo e a nova criação. A história não termina em catástrofe, mas em casa: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens” (Ap 21:3).

O Apocalipse não é um quebra-cabeça nem um livro de códigos. É um livro de imagens — figuras poderosas dadas por Deus para que sua igreja veja a realidade além das aparências e viva com coragem, esperança e adoração. E foi escrito para nós. Não para especialistas, nem apenas para entusiastas de profecia, mas para os servos de Jesus Cristo. Se seguimos a Cristo, este livro é nosso. E Deus promete uma bênção a quem o lê, o ouve e o guarda — assim como prometeu no primeiro versículo e repete no último capítulo.

Vamos começar.

Notas

  • 1 – A conexão entre Ap 1:1 e Dn 2:28–30 é amplamente reconhecida pelos comentaristas. Ver Dennis Johnson, Triumph of the Lamb (Phillipsburg: P&R, 2001), pp. 33–35; G.K. Beale & David Campbell, Revelation: A Shorter Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2015), pp. 3–5.
  • 2- Ap 1:1, 4, 9; 22:8.
  • 3 – Irineu de Lyon, Contra as Heresias V.30.3 (c. 180 d.C.). Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica III.23 e V.8.4, preserva o testemunho de Irineu sobre Policarpo e João.
  • 4 – Irineu, Contra as Heresias V.30.3. Ver também William Hendriksen, More Than Conquerors (Grand Rapids: Baker, 1940), pp. 10–13; Johnson, Triumph of the Lamb, pp. 10–12.
  • 5 – Sobre o simbolismo do número sete como totalidade e a representação da igreja universal, ver Hendriksen, More Than Conquerors, pp. 17–18; Richard Bauckham, The Theology of the Book of Revelation (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), pp. 1–2.

Bibliografia

  • Bauckham, Richard. The Theology of the Book of Revelation. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
  • Beale, G.K. e David Campbell. Revelation: A Shorter Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 2015.
  • Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000.
  • Hendriksen, William. More Than Conquerors. Grand Rapids: Baker, 1940.
  • Irineu de Lyon. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 1995.
  • Johnson, Dennis E. Triumph of the Lamb: A Commentary on Revelation. Phillipsburg: P&R Publishing, 2001.
  • Nova Almeida Atualizada (NAA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.