Babilônia parece permanente. A igreja, por sua vez, parece derrotada. E Cristo — o Cordeiro morto no capítulo 5 — parece o candidato menos provável a rei. O Apocalipse está prestes a inverter as três coisas.

Depois de tudo o que já vimos — o dragão lançado da terra, as bestas que perseguem e seduzem, a igreja que sofre e testemunha — o livro avança para o destino desses personagens. Primeiro cai Babilônia. Depois a besta e o falso profeta. E o céu responde com adoração.

1. Babilônia parece gloriosa — mas está condenada

Já vimos quem Babilônia representa. Agora João nos mostra seu destino.

João vê uma mulher sentada sobre uma besta escarlate, vestida de púrpura e ouro, embriagada com o sangue dos santos. O esplendor é real — e é exatamente esse o problema. O que parece grandeza por fora é exposto pelo símbolo como corrupção em sua forma mais extrema. Uma prostituta embriagada de sangue: assim o Apocalipse julga toda grandeza humana construída sobre exploração e idolatria.

Babilônia age de duas formas. Ela seduz — os reis da terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição, os mercadores enriqueceram com seu luxo (17:2; 18:3). E ela persegue — está embriagada com o sangue dos santos e das testemunhas de Jesus (17:6). Quando a sedução não basta, vem a violência.

Babilônia representa o ambiente cultural, econômico e religioso no qual o poder bestial torna-se atraente e lucrativo. Mas essa aliança é instável: no próprio capítulo 17, a besta que a sustenta acaba se voltando contra ela e a destruindo (17:16-17). O mal termina devorando seus próprios aliados.

2. “Saí dela, povo meu”

No meio do julgamento, uma voz chama o povo de Deus: Saí dela, povo meu, para que não sejais participantes dos seus pecados e para que não recebais as suas pragas (18:4).

O eco é antigo. É o mesmo chamado que atravessou o exílio babilônico (Jr 51:45; Is 48:20). Sair, não ser cúmplice.

Mas sair daqui não é separatismo geográfico. A igreja não é chamada a abandonar o mundo. É chamada a recusar a cooptação. Babilônia não precisa que a igreja a destrua — precisa apenas que a imite. Que adote seus valores. Que se curve diante do prestígio que ela oferece, mesmo quando a idolatria lhe é oferecida numa taça de ouro.

A tensão entre a igreja e Babilônia não é geográfica. É de lealdade. É a mesma pergunta que já ecoava nas cartas às sete igrejas: Sardes, que tem nome de viva, mas está morta; Laodiceia, que se acha rica e não percebe sua pobreza. A quem pertence a nossa lealdade?

3. Babilônia cai — e o mundo lamenta

Caiu, caiu a grande Babilônia! (18:2) — a voz ecoa Isaías e Jeremias, impérios que também pareciam eternos.

Três grupos choram. Os reis, que se beneficiaram do seu luxo, veem a fumaça do incêndio de longe (18:9-10). Os marinheiros jogam pó sobre a cabeça (18:19). E os mercadores lamentam que ninguém mais compre suas mercadorias — a lista é longa: ouro, prata, pedras preciosas, linho, especiarias, vinho, cavalos, carruagens. E, ao final da lista, o detalhe que expõe tudo: os corpos e as almas de homens (18:13). O comércio de Babilônia não poupava nem a própria dignidade humana. Vidas viravam mercadoria.

O que eles lamentam é revelador. Não a injustiça. Não o sangue dos santos. A perda do negócio: Ai, ai, da grande cidade […] porque, em uma hora, foi assolada (18:19).

O juízo não é apenas punição — é clareza moral. O que parecia glória era exploração. O que parecia prosperidade era cumplicidade. A fumaça que sobe é o fim de uma ilusão.

4. A prostituta cai — a Noiva aparece

Desde o capítulo 17, João coloca duas mulheres diante do leitor — e a queda de Babilônia só faz sentido pleno quando as vemos lado a lado.

Babilônia se adorna com ouro e se embriaga com sangue derramado; à Noiva foi dado vestir-se de linho fino, resplandecente e puro — “porque o linho fino são os atos de justiça dos santos” (19:8). Até a veste da Noiva é recebida. Babilônia seduz as nações à idolatria; a Noiva é apresentada ao Cordeiro. Uma termina em fumaça; a outra, em festa.

Duas mulheres. Dois mundos. Babilônia oferece o que parece glorioso agora e termina em ruína. A Noiva sofre agora — perseguida, tentada, muitas vezes pobre aos olhos do mundo — e termina diante do Cordeiro.

Já sabemos a qual das duas pertencemos?

5. O Rei chega — e a guerra termina

O céu responde à queda de Babilônia com adoração. Quatro vezes ressoa o Aleluia (19:1-6) — e é significativo que essa palavra apareça no Novo Testamento somente aqui. Diante da queda de Babilônia e das bodas do Cordeiro, o céu responde: Aleluia.

O Senhor nosso Deus Todo-Poderoso reina (19:6). Não começará a reinar depois da vitória. Ele já reina — e seu reinado agora se manifesta no julgamento de Babilônia e nas bodas do Cordeiro.

E então o céu se abre, e um cavaleiro aparece sobre um cavalo branco (19:11-21). Olhos como chama de fogo. Muitas diademas. Da sua boca sai uma espada afiada.

Seu manto já está tingido de sangue antes mesmo da batalha começar — uma imagem que evoca tanto o Guerreiro divino de Isaías 63 quanto, no Apocalipse, o Cordeiro que venceu por meio de sua própria morte.

Da boca. Não dá mão.

A espada não é uma arma militar comum. Representa a palavra soberana e judicial de Cristo — a mesma que saiu da boca do Filho do Homem na visão inaugural do livro (1:16). Cristo não precisa das armas dos impérios para vencer.

O nome do Cavaleiro: A Palavra de Deus (19:13). O Rei que foi morto como Cordeiro agora aparece como Juiz. A besta é capturada. O falso profeta, que seduzia com sinais, é capturado junto. Os dois são lançados no lago de fogo (19:20). Os exércitos reunidos contra o Cavaleiro caem diante da espada que sai da sua boca.

Nenhum poder permanece diante dele.

Fechamento

Babilônia caiu. A besta e o falso profeta foram julgados. Mas ainda resta o personagem que estava por trás de todos eles — aquele que os armou desde o início.

O que acontece com o dragão? É para essa pergunta que João se volta em seguida.

E enquanto isso, já sabemos onde estamos. Vestidos do linho que nos foi dado, não pertencemos ao lamento de Babilônia. Pertencemos ao Aleluia da Noiva.