Por que este livro existe


O Apocalipse foi escrito para fortalecer igrejas sob perseguição — não para alimentar especulação sobre o futuro.

Há uma pergunta que quase todos têm quando abrem o Apocalipse, mesmo sem perceber: O que vai acontecer?

É uma pergunta compreensível. O livro fala de guerras, pragas, besta, dragão e fim do mundo. É natural que a curiosidade sobre o futuro seja a primeira reação. Mas há outra pergunta — aquela que o próprio livro nos ensina a fazer:

O que Deus pretendia que este livro fizesse no coração de quem o lê?

Essa será a pergunta que guiará todo o nosso estudo.

Um livro para pessoas em sofrimento

O Apocalipse não chegou ao mundo como um manual de profecias para estudiosos curiosos. Chegou como uma carta — ou melhor, como um conjunto de cartas endereçadas a igrejas reais, em cidades reais, sob pressões verdadeiras.

As sete igrejas da Ásia Menor viviam sob o peso do Império Romano. Algumas sofriam perseguição aberta. Outras enfrentavam opressão econômica e social por recusarem-se a participar do culto imperial e das guildas pagãs. Havia quem duvidasse: vale a pena permanecer fiel? Cristo realmente reina? Onde está Deus quando seu povo sofre?

O Apocalipse foi escrito para esse povo, naquele momento. Não para alimentar especulações, mas para fortalecer a fidelidade.

João estava exilado na ilha de Patmos quando recebeu estas visões (Ap 1:9). Ele mesmo participava do sofrimento que descrevia. Quando escreveu “tribulação”, “paciência” e “reino”, essas não eram palavras abstratas — eram a realidade vivida por toda uma geração de cristãos que se perguntava se a fé valia o custo que exigia.

Esse contexto não limita o alcance do livro — ele o expande. O sofrimento da igreja do primeiro século não foi uma exceção histórica, mas o padrão que se repetiria em cada geração. Por isso o Apocalipse foi preservado, copiado, lido em voz alta nas igrejas e chegou até nós: porque o que Deus disse àquelas comunidades ainda precisava ser dito.

A bênção que abre e fecha o livro

Há um detalhe que muitos leitores ignoram, mas que revela muito sobre o propósito do livro: ele começa e termina com uma bênção para quem ouve e guarda suas palavras.

“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.” — Apocalipse 1:3 (NAA)

“Eis que venho sem demora. Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro.” — Apocalipse 22:7 (NAA)

Observe o verbo: guardar. Não decifrar, não calcular, não mapear em um gráfico. O Apocalipse foi dado para ser guardado — isto é, vivido. A bênção prometida não é para quem resolve o mistério, mas para quem permanece fiel.

Essa estrutura — uma bênção no início e outra no fim — funciona como uma moldura que envolve todo o livro. O que está dentro dessa moldura? Uma palavra de Deus para seu povo perseguido: Cristo reina, o juízo virá e a nova criação é certa. Permaneçam fiéis.

O Apocalipse contém sete bem-aventuranças ao todo.¹ Em cada uma delas, a bênção não recai sobre quem compreende, mas sobre quem persevera, quem se mantém puro, quem guarda, quem é fiel até o fim. O livro é um convite à fidelidade, não um teste de conhecimento profético.

O que significa “revelar”

A primeira palavra do livro, em grego, é apokalypsis — revelação, desvelamento. Mas o que está sendo revelado?

O versículo de abertura nos diz com precisão: “A revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer” (Ap 1:1). A revelação é, antes de tudo, uma revelação de Jesus Cristo — não de cronogramas, não de potências mundiais, não de sequências de julgamento. O centro do livro é uma pessoa.

Antes de ver qualquer evento futuro, João vê Cristo (Ap 1:12–18). E o Cristo que ele vê é glorioso, soberano, eterno — “o que era, e que é, e que há de vir” (Ap 1:8). Somente depois dessa visão fundamental é que os selos são abertos, as trombetas soam, as taças são derramadas. Tudo o que o livro mostra sobre o mundo, a história e o futuro parte dessa visão de quem governa.

Isso muda a pergunta que fazemos ao ler. Em vez de perguntar “Qual evento histórico corresponde a este símbolo?”, podemos perguntar: “O que este símbolo me revela sobre Cristo e sobre a condição do seu povo?”

Humildade diante de um livro difícil

Precisamos ser honestos: o Apocalipse é o livro mais debatido da Bíblia. Cristãos que amam as mesmas Escrituras, confessam o mesmo Senhor e pregam o mesmo evangelho chegam a conclusões diferentes sobre seus detalhes.

Isso não é motivo de ansiedade. É motivo para humildade.

Ao longo deste estudo, vamos apresentar uma forma de ler o Apocalipse que acreditamos ser fiel ao texto e ao seu propósito pastoral. Mas nunca vamos tratar quem discorda como alguém que abandonou a fé. Discordância sobre escatologia não é discordância sobre o evangelho.

O que une todos os cristãos fiéis é mais profundo do que qualquer interpretação do capítulo 20: Cristo morreu pelos nossos pecados, ressuscitou corporalmente, ascendeu ao trono do Pai e voltará visivelmente para julgar e renovar todas as coisas. Todo o resto — o milênio, o arrebatamento, a grande tribulação — é assunto de discussão dentro da família.

Isso não é indiferença teológica. É fidelidade ao que as próprias Escrituras enfatizam. Paulo chama a igreja a receber uns aos outros assim como Cristo nos recebeu (Rm 15:7) — e esse princípio vale também aqui.

A pergunta que muda tudo

Quando lemos o Apocalipse querendo saber “O que vai acontecer?”, o livro facilmente se torna um quebra-cabeça a resolver — e a frustração é inevitável, porque o texto resiste a essa abordagem.

Gerações de intérpretes tentaram mapear as visões do Apocalipse sobre os eventos de suas épocas. Em cada geração, a interpretação pareceu convincente — e em cada geração, os eventos não corresponderam ao que foi previsto. Líderes do século XVI identificaram o papa com o Anticristo. Escritores do século XIX viram Napoleão nas profecias. No século XX, cada conflito mundial foi interpretado como cumprimento iminente do Apocalipse.²

O livro resistiu a todas essas leituras. Não porque seja impenetrável, mas porque não foi escrito para responder a essa pergunta.

Quando lemos querendo saber “O que Deus quer fazer em nós por meio deste livro?”, o Apocalipse se abre como o que sempre foi: uma palavra de conforto para os que sofrem, uma convocação à adoração, um lembrete de que Cristo reina — e de que o Cordeiro que foi morto é digno de toda a nossa fidelidade.

Essa é a pergunta que vai guiar as doze sessões deste estudo.

Notas

  • 1 – As sete bem-aventuranças do Apocalipse encontram-se em 1:3; 14:13; 16:15; 19:9; 20:6; 22:7; 22:14. Ver Dennis Johnson,Triumph of the Lamb(Phillipsburg: P&R, 2001), pp. 44–45.
  • 2 – Para um levantamento histórico dessas interpretações e de sua repetição em cada geração, ver William Hendriksen,More Than Conquerors (Grand Rapids: Baker, 1940), pp. 14–16; Richard Bauckham,The Theology of the Book of Revelation (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), pp. 4–6.

Bibliografia

  • Bauckham, Richard. The Theology of the Book of Revelation. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
  • Hendriksen, William. More Than Conquerors. Grand Rapids: Baker, 1940.
  • Johnson, Dennis E. Triumph of the Lamb: A Commentary on Revelation. Phillipsburg: P&R Publishing, 2001.
  • Nova Almeida Atualizada (NAA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.